20111019

o moço e a mosca

Estava o moço espreguiçado debaixo duma árvore comendo melancia. Mordia a polpa encarnada, separava as sementes com a língua e sorvia do líquido rubro. O sumo, não contido em sua suculência, escorria do canto dos lábios em esquerda diagonal ao pescoço, desembocando na saboneteira. Ali formou-se um mínimo e doce lago avermelhado.

Uma mosquinha decidida pousou no ombro do moço, e excitada pelos odores, desceu por sua clavícula. Que benquerença! Beijava com seu canudinho a pele adocicada do moço. Zzp, que gostoso... Zzp, que fresquinho... Zzp, que moço lind.

Num tapa certeiro e viril, o moço matou Clarinha, a mosca que o amara por oito segundos como ninguém jamais o faria.

Desatou a chorar.



se uma mosca pousar
em ti
não a mates
pode ser teu bem-querer

mosca ama merda
e merda é o máximo
que podes ser

20110517

Carla, ovelha fofinha, tingida de amarelo e rosa-choque. É adolescente e se acha punk. Não fala inglês, mas decorou todas a letras das bandas da moda. Quando canta não saem mais que "bé... beeeé"; e ela arrasa mesmo assim, pensa.

A ovelha Carla tem o sexo tão protuberante, que lhe dá o aspecto de marsúpio; como se a qualquer instante pudesse saltar dali uma mínima ovelha de tufos louro-carmim. Ademais, Carla aprendeu a ser bípede. O que para muitos é motivo de troça, para Carla é razão de excitação.

Carla ganha a vida a andar (a duas patas) pelas ruas, posando para fotos com transeuntes. Tiram-lhe um papelinho de sua pochete natural: um poema por um a quatro reais. Já recebeu propostas indecentes, até mesmo participação em filme pornô. Mas não aceitou pois, apesar de tudo, quer manter-se íntegra para consigo. Carla acredita naquele amor.

20110417

o futuro
é impossível
sempre infinito
um ponto, um momento
que nunca é de fato

sou no presente
o futuro do meu passado
o passado do meu futuro

20110322

Ricardo mora na beira da praia junto de sua família, uma colônia de tatuíras.

As tatuíras (ou tatuís) são crustáceos, tipo um minitatu do mar. Nadam pela beirinha, surfam um pouquinho, pegam jacaré e cavam uns tuneizinhos na areia molhada para descansarem protegidas dos predadores. O problema é que as gentes andam por cima (e nunca olham para baixo) pisoteando as inofensivas criaturas. As pessoas, essas assassinas, deviam é notar bem as marquinhas em V deixadas pelas tatuíras quando perfuram a areia, e lhes agradecer por habitarem aquela praia: tatuíra é bicho fino, só mora em praia limpa.

As tatuíras não usam nem relógio, nem agenda, nem calendário. Para uma tatuíra, o tempo passa de acordo com seu fluxo cardíaco, quanto mais rápido bate seu coraçãozinho, mais depressa sua vida acaba. Por isso Ricardo é sossegado, quieto na sua, tranquilaço. Quer morrer tarde. Sua mãe, trabalhadeira, morreu quando ele e suas irmãs e irmãos ainda eram larvinhas à deriva no oceano. Seu pai, nem conheceu. Parece que ainda adolescente, logo após ovar sua mãe e mais duas tias, foi pego por uma guria de maiô purpurinado alaranjado e uns lacinhos roxos. Pois a monstra sádica quis guardá-lo para si e o colocou na piscininha mijada do irmãozinho. Mesmo antes de esturricar na areia seca, o minicoraçãotatu já tinha se esgotado.

Mas as tatuíras não guardam mágoa. Não que as tatuíras sejam seres repletos de bondade e benquerença, é questão de sobrevivência: um pequenino coração magoado não dura.

20110203

mauro
masoquista
louco por um sexo animal
lesma gosmenta, adora que lhe joguem sal.

rasteja húmido
com seu corpo verde-babosa
libidinoso, lascivo, lânguido
a procura de uma parceira no quintal

vanda
formiga fogosa
deu-lhe umas boas mordiscadas
provando-se a companheira ideal

20110131

begônia, a escritora-amante & sylvia, a jaca revolucionária


num dia de verão, ia begônia para seu trabalho. feliz porque a chuva tinha lhe dado uma trégua e ela podia agora simplesmente deslizar pela pista de lama em que se transformara a rua; enraivecida porque o sol bravio, rústico, assanhado e invasivo já lhe esturricava até os pentelhos. ah, se o solo já não estivesse quente! nua, jogar-se-ia num infantil banho barroso.

perto dali, uma árvore frondosa a convidava para um merecido descanso sob a sombra. serelepe, begônia sentou-se sozinha, abriu as pernas e com a terra geladinha, protegida pela árvore, refrescou sua cálida perereca. nesse momento surge o cupido, o acaso, o tesão: ao inclinar a cabeça para cima revirando os olhos, dá com a figura salpicada-verde-reptiliana de sylvia. ah, sylvia! quando te vi, teu corpo, tua pele, teus inúmeros mamilos esverdeados; tu me esperavas rija e suspensa, penduradinha por teu talo corpulento.

o dia delongou-se; a noite dilatou-se.

begônia é amante, suas maiores paixões: escrever, os animais e comer. escreve o que ama e não come os animais. chegando em casa, tomaram juntas um banho gelado. as duas, peladas, fizeram loucuras. begônia descobriu os prazeres da jaca. sylvia, versátil, conheceu a insaciável escritora glutona. tantos mamilos tesos e tantas carnes tenras renderam tantos pratos trincados. sylvia mudou a vida de begônia para sempre.

20110102

Reúnem-se todos os sábados para uma conversa sanguínea, as pulgas Judith, Augusta, Odacir e Mara Rúbia.

Com seus micropelos penteadíssimos para trás, deslizam para o que chamam cozinha, o rabo da cadela. Usam de suas peças bucais, espinhos mínimos para se agarrarem à pele do bicho, cortam o tecido com suas serrinhas e por uma agulha diminuta chupam com gosto o líquido viscoso. São gulososas e grosseiras, comem e cagam enquanto falam. Cavaqueiam fofoqueiras de boca cheia sobre a vida dos outros, daqueles que são uns desgraçados. Riem-se dos amaldiçoados, caçoando de suas vidas lúgubres.

Sugam vorazmente o rubro fluido da cadela que, inquieta, coça e morde o próprio rabo. Mas as pulgas não se afugentam, colam como velcro nos pelos caninos e gargalham bêbadas com os sacolejos aflitos do corpo parasitado. As pulgas excitadas, quase zuretas, gritam asneiras, soluçam e gaguejam todo tipo de delírio.

Me fode, me fode agora! - berra Judith. Cadê o teu cu, Dith?! - pergunta imbecilmente Augusta, tentando meter a gálea no que seria o ânus da amiga. Odacir descontrola-se: vocês são as maiores putas que eu já conheci, suas vacas imundas; vou passar minha merda em vocês todas, suas sapecas! Solfejando, Mara Rúbia gira e gira e gira, dá um pulinho e diz pimpão!

Aparvalhadas e entorpecidas pelo sangue brilhante ingerido, eriçam-se e perdem a aderência, caem tontas, moribundas no chão.

Judith nunca amou.
Augusta só fez reclamar.
Odacir praguejava sem parar.
Mara-Rúbia-foi-com-as-outras.

20101215

Glauber de Arroz, distinto grão parboilizado, hoje leu seu horóscopo: "não seja tão afoita".

Ao ser despejado na panela juntamente com os seus, alvoraçado pelo calor excitante do óleo e os chiados dourados da cebola, precipitou-se desejoso em reforgar-se na orgia. Deslizou descontrolado por sobre um e outro primo-irmão, resvalou na colher de pau que repousava rija e metediça à festa, e foi ao chão o nosso grão.

No piso engordurado - junto à poeira, cabelos caídos e ao lado de um cream cracker amolecido - está Glauber, um grão de arroz afoito e afobado que jaz cru, duro e não comido.